ÁGUA - ENTREVISTA COM OCTACIANO NETO


Água


A falta de chuvas tem prolongado a crise hídrica no Espírito Santo. Em entrevista para a Majestosa Linhares 216 Anos, o secretário de Agricultura, Octaciano Neto, destaca as medidas que estão sendo tomadas para garantir a retomada do crescimento no campo e alguns investimentos para o município.


ENTREVISTA

Majestosa Linhares: Como está sendo implementado o projeto de construção de barragens no Estado?

Octaciano Neto: O governador Paulo Hartung destinou R$ 90 milhões para a construção de um conjunto de obras no Estado. Esse dinheiro está em conta e o desafio agora é o da engenharia, pois todos esses projetos dependiam das prefeituras fazerem o licenciamento ambiental e a doação de terras. Algumas obras já foram iniciadas. As outras barragens que ainda não foram dadas a ordem de serviço devem começar a ser erguidas até dezembro. Aqui na região de Linhares, a barragem de Cupido, em Sooretama, está entre elas.

Mas as ações de políticas públicas do governo contra a seca não é só de construção de barragens. Estamos passando também por cursos e licenciando milhares de barragens. A Agência Agricola e Florestal do Espírito Santo, IDAF, licenciou no ano passado 1,6 mil barragens e mais duas mil em 2016. É assim que a gente enfrenta esse desafio de reservar água. Existe um conjunto de políticas publicas.


ML:Que aprendizado essa longa estiagem trouxe para nós capixabas?


ON: Se tem algo de bom que podemos tirar desta seca é a quebra de paradigmas. Durante muitos anos, para se produzir alimentos no Brasil tinha-se em mente que era preciso desmatar. Nós fizemos isso durante muito tempo. É claro que não adianta jogar pedra no passado, pois era a melhor forma de sobrevivência, mas ficou provado que se desmatar fosse sinônimo de desenvolvimento, Pedro Canário seria o município mais desenvolvido do Estado e não é. No ES o município que mais produz é Santa Maria de Jetibá, onde o produtor ganha mais dinheiro por hectare de terra e lá existem 50% de cobertura vegetal. Isso prova que para produzir mais é preciso aumentar a cobertura vegetal e reservar água.


ML:E quanto ao melhoramento nos sistemas de irrigação?


ON:Difundir a tecnologia de irrigação é muito importante. Ela existe, mas ainda está muito nos livros e nas faculdades, por isso a gente não faz a irrigação adequada. Não importa se o terreno é mais arenoso, o que vale é irrigar de maneira inteligente.

Irrigar a lavoura da maneira como estamos fazendo hoje é um equivoco. Em alguns casos estamos colocando água demais e em outros irrigando de menos. Tem que ser mais eficiente no manejo da irrigação e é fundamental ter mais tecnologia no sistema que utilize pouca água. Esse desafio não é só da agricultura, mas é assim também na indústria e nas nossas próprias casas.


ML:Com menos água disponível não seria importante limitar a expansão de lavouras?


ONO próprio ciclo da agricultura no Espírito Santo vai ser de redução de área plantada. Desde o marco legal do código florestal que deu segurança jurídica e estabeleceu regras muito claras para o produtor rural sobre Áreas de Proteção Permanentes (APP's) e recuperação de área de reserva legal, os produtores tem trabalho. Antigamente a gente achava que tinha que desmatar, mas hoje é o contrário. É preciso investir em tecnologia e ampliar cobertura vegetal.

Desde a década de 1970, isso tem mudado com o surgimento da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, Embrapa, e o fortalecimento do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural, Incaper. Na próxima década a gente vai para um declínio de área plantada. Não dá para continuar usando APP e reserva. É possível ter boa produção em áreas menores.


ML:A safra do nosso Conilon teve grandes perdas este ano. O que o governo tem feito para ajudar a melhorar esse desempenho da produção 2017?


ON:O Conilon é a situação mais delicada hoje no Estado porque a perda media vai passar de 50%. O Incaper fez um programa de qualificação de cem técnicos no interior para dar orientações ao produtor rural. Há casos em que a melhor providência é acabar com a lavoura e replantar. Mas em algumas situações, o indicado é a recepa, ou seja, você corta o cafezal e ele brota. Mas há também casos em que é possível fazer a recuperação total da lavoura. Estamos também lutando junto com a bancada federal capixaba em Brasília pela aprovação da Medida Provisória 733 que prevê a renegociação de dívidas agrícolas. A carteira de crédito agrícola no Espírito Santo é R$ 7 bilhões e este ano R$ 1,5 bilhão está vencendo. É preciso dar um alívio para o produtor.


ML:É um momento em que a importância da diversificação no campo se torna mais evidente?


ON: Não dá pra colocar todos os ovos numa mesma cesta. Imagine numa família em que o pai, a mãe e o filho trabalham na mesma empresa. Se o negócio não der certo a família toda fica sem renda. Na agricultura é a mesma coisa, é preciso diversificar. Tem lavouras que sentem mais a seca e outras menos.

Os preços variam de acordo com uma lógica própria. Atualmente os Estados Unidos estão abrindo o mercado para a carne bovina brasileira e o preço deverá subir aqui. Há lugares no Espírito Santo em que é permitido cultivar seringueira em reseva legal, ou seja, é possível ter renda até em APP. Diversificação garante renda média, o que é fundamental.


ML:E quanto à agricultura familiar, há algum projeto?


ON:No Estado 94% de nossas propriedades rurais têm menos de cem hectares. Áreas desse tamanho no Pará ou Mato Grosso são como sítios. Nós lançamos no ano passado o Fundo Social de Apoio à Agricultura Familiar (Funsaf) em parceria com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, BNDES. Esse fundo permite que associações e cooperativas do Estado apresentem projetos para melhorar a renda. Eu cito como exemplo, o assentamento Oziel Alves, em Montanha, que venceu um Funsaf e está recebendo R$ 500 mil da Secretaria de Estado da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca, SEAG, em parceria com o Bandes. Lá será montado um galpão para secar café e pimenta no próprio assentamento. O projeto não é fruto da decisão política, mas um concurso em que qualquer associação ou cooperativa pode concorrer.


ML:Em relação a Linhares, há alguma ação específica para o agronegócio?


ON:A Seag lançou um edital de pesquisa no ano passado conectado com a demanda do produtor. Cerca de R$ 1,3 milhão estão sendo investidos em pesquisas para a produção de um mamão mais doce na região, com maior valor no mercado internacional. O desempenho das vendas no exterior ainda está abaixo do esperado e precisamos fortalecer esse segmento.

Outra ação importante e que beneficia a economia de Linhares são as medidas voltadas para a agroindústria. Uma delas é a importação de milho sem imposto da Argentina. Representantes da Proteinote Alimentos estiveram conosco na missão ao país vizinho e lá conseguimos comprar milho mais barato, o que deve beneficiar a agroindústria de frango.

O governador Paulo Hartung também assinou um decreto ampliando a competitividade tributária para a agroindústria de carne. Isso significa que quem atua no beneficiamento de carne bovina, suína, aves e outros poderão concorrer com outros mercados com mais força.


‘’É preciso dar um alívio para o produtor’’. Falando da MP 733 que prevê a renegociação de dívidas agrícolas.

Octaciano Neto


Secretário de Agricultura do Governo do Estado do Espírito Santo