460 18/04/2022 às 18:18 - última atualização 18/04/2022 às 20:12

Cultura popular capixaba de luto; morre Mestre Terto

Redação Em Dia ES

Ele comandou o Ticumbi de São Benedito por 64 anos, mantendo viva essa tradição única do norte do Espírito Santo
Cultura popular capixaba de luto morre Mestre Terto. Foto Gabriel Lordelo
Tertolino Balbino traz poesia no nome. Mestre Terto, como ficou conhecido, comandou por 64 anos o Ticumbi (ou Baile de Congo) de São Benedito, um dos poucos grupos remanescentes desta manifestação cultural típica dos negros do Sapê do Norte, região quilombola localizada entre Conceição da Barra e São Mateus. Na noite desse sábado (16), às vésperas da Páscoa e a 11 dias de completar 89 anos, ele faleceu depois de tempos adoecidos, em que permanecia como Mestre Emérito.

Não seria exagero dizer que foi um dos mais importantes mestres da cultura popular capixaba do século passado e deste que ainda está no começo. Por sua dedicação, sabedoria e fé, sua capacidade de manter um grupo unido, preservando e reinventando tradições, ativo e se renovando ao longo do tempo, desafio cada vez maior nos tempos de tantas distrações. 

Mas entre mestres e mestras, não há como comparar. Cada um com seu ofício, seu compromisso, sua comunidade, seu território, com diferentes manifestações que fazem pulsar de forma esplêndida a vida pelos vários cantos do país. Fugindo de comparações, Terto foi único. Deixa um legado impossível de se medir. Manteve firme o Ticumbi por mais de meio século no território quilombola e o projetou para além das divisas do Espírito Santo, além de permitir novos diálogos e ressignificações, como nas apresentações conjuntas com a Orquestra Sinfônica do Espírito Santo (Oses), ocupando palcos antes inimagináveis para esses negros do norte capixaba.

Assumiu o comando do Ticumbi com apenas 21 anos, após a morte do Mestre Luiz Hilário, mostrando que o ofício de ser mestre não depende da idade, mas da capacidade e da liderança. Logo, assumiu o desafio de levar o grupo para representar o Espírito Santo no Congresso Internacional de Folclore em São Paulo, em 1954.

Em entrevista a Rogério Medeiros, quando tinha já 72 anos de idade e meio século de mestre, dizia que "ainda aguenta mais um pouco à frente do grupo para passar o bastão de mestre para outro negro conduzir as homenagens da negritude ao santo", conforme relatou o jornalista. Passou-se mais de uma década até que em 2018 ele transmitisse o comando do Ticumbi para um novo mestre, Berto Florentino. Mas até seu último ano de vida, acompanhou os festejos. 

No 1º de janeiro de 2022, quando Berto, adoecido, não pôde comandar a tradicional apresentação anual na Igreja de São Benedito, lá estava Mestre Terto, apesar das dificuldades na vista, ouvindo atentamente o grupo se apresentar e exercendo a mestria da maneira que ainda podia, como Mestre Emérito. Quem é rei, dizem, nunca perde a majestade.

Tertolino Balbino, felizmente, teve em vida reconhecimento com diversos títulos e homenagens em vários âmbitos. Certamente não tanto quanto merecia, mas muito mais do que tantos mestres que permanecem no anonimato fora de suas comunidades. Agora eterno, Mestre Terto continua merecendo ser sempre lembrado, homenageado e seguido como exemplo, para que a cultura siga viva, como resistência aos atropelos da modernidade pausterizada.

Terto, perguntado sobre o que é ser mestre de Ticumbi, comentou: "Eu acho que o mestre tem que tirar a brincadeira e passar para os outros. E ficar na frente para manobrar o grupo". 
Sobre "tirar a brincadeira", explicou sobre os versos feitos que fazem perto do festejo, com rimas renovadas a cada ano. "Eu tiro tudo de cor, vou escrevendo, separando as partes para depois, nos ensaios, estar tudo decorado. Depois que eu faço a brincadeira, que está tudo certo, eu posso escrever para deixar como lembrança, mas eu tiro de cabeça", diz, evidenciando o poder da oralidade nas comunidades quilombolas. Apesar das quase duas horas de apresentação, tudo ficava guardado na memória.

Com Século Diário
 
 
 

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